8/10/2017

De Ronaldo Werneck sobre "Refugiados", de Joaquim Branco





O POETA, ESSE REFUGIADO
Ronaldo Werneck

“De frio e fome/ cobertos apenas pela chuva/ eles morrem às dezenas,/ vindos do país do nada/ para o nada caminhando” – escreve Joaquim Branco na abertura de seu poema “Refugiados”, que dá título a esse novo e belo livro do poeta cataguasense. Não foi à toa que Platão expulsou os poetas da República, deixou-os fora do Banquete. Quando conscientes, poetas são perigosos. Poetas apontam o caos do cotidiano. Poetas são refugiados do sistema. Poetas são refugiados até mesmo da literatura.
E refugiados podem um dia insurgir, recusar, rebelar-se contra as injustiças: “Caminham em paralelas/para o infinito ou para a morte/sobre os trilhos que os libertem/da difícil batalha contra a sorte". Exatamente como fazem os poetas da recusa, antenados com o mundo à sua volta. Não só com poemas participantes, de protesto, como com aqueles outros, os poemas visionários, antecipadores, que vão de encontro à arte tradicional. Nada mais são que também refugiados esses poetas que fabricam seus poemas de recusa.
“Braço que acusa o acaso”, escreveu Augusto de Campos em sua elegia para o poeta Mário Faustino, o ´aeromorto´. O mesmo Augusto que nos diz em seu livro “Poesia da Recusa” (Ed. Perspectiva, 2006): “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas. A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo. Da recusa estética (Mallarmé) à recusa ética (Tzvietáieva), se é que ambas não estão confundidas numa só, essa poesia, baluarte contra o fácil”.
E Augusto se estende em seu rol de recusas: “A maioria das pessoas quer o consolo do entretenimento, arte fácil e descartável para descansar a cabeça, ‘esquecer da vida’, e não para problematizar-se. O que quer, afinal, Mallarmé, com tantos enigmas? Conhecer-se. Romper os limites da linguagem para compreender e exprimir melhor as angústias humanas diante do enigma supremo da vida e da morte. Revitalizar a própria linguagem, dando-lhe um sentido mais puro”.
Exatamente o que quis e quer Joaquim Branco em seus longos anos de ofício literário. Nós nos conhecemos – melhor, nos aproximamos e começamos a trocar ideias e dar início à fabricação de nossos projetos literários – lá nos longes de uma Cataguases dos anos 1960. Uma amizade que se solidifica a cada minuto, que é também (evoé, Cassiano Ricardo!) “um século XX”, já devidamente extrapolada para este século XXI.
E conhecer o homem, o amigo Joaquim Branco, é conhecer um ser em toda a sua dignidade, um intelectual íntegro, é saber das “recusas” representadas por seus trabalhos – da qualidade, da coerência de sua obra que se perpetua em sua já longa trajetória. É saber de suas incursões pelos vários movimentos que foram surgindo – concretismo, práxis, poema processo, poema postal, poema visual – que demonstraram o poeta atento ao seu tempo.
E essa “curiosidade” – impressa na produção de poemas que remetem a esses movimentos,como os que se encontram em seu novo livro, com suas artesanias & artimanhas de expressiva visualidade – me faz lembrar as investidas do citado Cassiano: exatamente como o Joaquim de hoje, um poeta já de “longo curso”, que também participou ativamente dos movimentos da poesia concreta e da poesia práxis, antes de criar os seus linossignos.
“Refugiados”revela novíssimos poemas, grande parte escritos em 2017, e traz uma bela capa idealizada pela filha do poeta, Natália Tinoco – que imprimiu ótimo tratamento na foto dos refugiados, alguma coisa meio “flou”, impressionante, como se suas almas pairassem sobre eles. O livro demonstra mais uma vez a vitalidade de Joaquim Branco – a quase magia de perpassar pelos vários momentos atravessados pela vanguarda nas últimas décadas sem perder a autenticidade, sem se deixar levar por aqueles falsos criadores de meras cópias, de simples pastiches.
Esses poemas, como sempre tonificados por instigantes pedras-de-toque, têm sua marca, sua assinatura, essa dicção própria e sempre inovadora que há muito tempo me fascina. Às vezes seus versos brancos e livres podem nos lembrar alguma coisa dos primórdios do modernismo, mas logo percebemos terem a chancela inconfundível dos versos “branco Joaquim”, articulados por harmônicos enjambements.
Em 1939, ao perder seu grande amigo, o poeta inglês W.H. Auden escreveu Funeral Blues, uma das mais belas elegias de todos os tempos, que ficou mais conhecida pelo filme “Quatro Casamentos e um Funeral”. Na ótima tradução de Nelson Ascher, transcrevo os dois derradeiros quartetos, e logo digo o porquê: “Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto/viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,/ meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;/ quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.// É hora de apagar estrelas — são molestas —/guardar a lua, desmontar o sol brilhante,/de despejar o mar, jogar fora as florestas,/pois nada mais há de dar certo doravante”.
E agora sim, o porquê da citação de Funeral Blues: em 2014, Joaquim Branco perde sua esposa e logo escreve uma também pungente elegia, “Folhas Caídas”, que se encontra nesse livro “Refugiados”. Ele parte da canção popular “Se essa rua fosse minha”, mas inverte o sentido satírico, parodístico, produzindo versos de extrema delicadeza, de intensa comoção. Um poema pautado pela perda, mas que não acena para “apagar estrelas” como o de Auden – antes sinaliza para o súbito acender de uma nova estrela, pelo ascender da amada que partiu. Termino com esse tocante poema de Joaquim Branco para Sonia Regina, comovido como da primeira vez que o li:


FOLHAS CAÍDAS

Na via-crucis desta rua
mora um anjo que se chama Sonidão.
Se eu pudesse eu mandava ladrilhar
seus passos para que ficassem
na terra que os viu passar.

Na via-láctea do sonho, uma estrela
no céu da tarde se fez
além de Órion
e vai brilhar pela primeira vez
no voo orbital do Sol.

Na via-férrea deste outono
– entre folhas caídas –
uma entre mil outras renasce,
como se o céu se abrisse
para não deixá-la cair
(injustamente)
para sempre
na impossibilidade
do não-ser.


Cataguases, 09.08.17


7/24/2017

MARK TWAIN e "AS AVENTURAS DE TOM SAWYER"



<

O romancista norte-americano Mark Twain


INFÂNCIA PERDIDA

Joaquim Branco

Venho lendo há semanas "As aventuras de Tom Sawyer", clássico do realismo-romantismo do norte-americano Mark Twain (1835-1910), em tradução de Monteiro Lobato de 1959.
A atração começa pelo volume em letras graúdas e pela encadernação dura e costurada que favorece o bom manuseio (ao contrário dos livros atuais que são geralmente grampeados e difíceis de se abrir).

Depois vêm as características do texto interessante de Mark Twain que retrata o antigo estilo de vida americano, especialmente a sociedade sulista dos Estados Unidos que vivia às margens do Mississipi, onde se passam a ações do romance.

Como disse, vou retardando a leitura o quanto posso, na base de um capítulo por dia, para acompanhar o sabor das aventuras infantis de Tom Sawyer, e conhecer o menino travesso e inteligente que protagoniza a estória. Com ele, ficam conhecidos também sua tia Polly, o irmão Sid, a namorada Becky e o grupo de garotos com quem convive, especialmente o superamigo Huckleberry Finn. Por sinal, quando revi o filme "Bonequinha de luxo" ("Breakfast at Tiffany's"), apreciei a atriz Audrey Hepburn cantando "Moon river", onde há um trecho em que é citado o nome do menino Huckleberry.

Publicado em 1876, o livro ultrapassou as fronteiras do país, ganhou não só os leitores do mundo como também as telas do cinema, os palcos do teatro, chegando até aos quadrinhos. Sawyer tornou-se um herói universal.

Além disso, entremeado à narrativa, ressalta, invariavelmente e em alguns pontos do texto, o espírito de Mark Twain que, como cronista atento de seu tempo, não deixa passar – como observou meu irmão Pedro – críticas à sociedade de seu tempo.

Enfim, "As aventuras de Tom Sawyer", como boa literatura que é, justifica minha leitura lenta também pelo lado do entretenimento que pode proporcionar ao leitor o conhecimento de verdadeiras amizades e muitos momentos de excelente lazer.


24-07-2017




Ilustração da 1ª edição do livro com o protagonista Tom Sawyer



4/18/2017

ENTREVISTA COM ASTOLFO DUTRA




Joaquim Branco entrevista Astolfo Dutra Nicácio Neto (1921-2008):

“Meus pais me legaram o amor pelo nosso torrão”



Astolfo com a esposa Neusa Mesquita

Morreu no dia 2 de dezembro de 2008 o eminente cataguasense Astolfo Dutra Nicácio Neto. Filho do casal Flávia/Pedro Dutra, herdou dos pais principalmente a correção e a generosidade que passava a todos que o cercavam. Advogado e escritor talentoso, político avançado e funcionário aposentado do Banco do Brasil, vivia no Rio de Janeiro há muitos anos ao lado da esposa Neusa Rodrigues Moreira Mesquita, professora universitária. Do primeiro casamento teve três filhos: Maria Cristina, Pedro e Beatriz Helena.
Foi deputado estadual em 1946, e seu pai Pedro Dutra tornou-se um político da maior importância em nossa cidade, bem como seu avô Astolfo Dutra, que alcançou a presidência da Câmara de Deputados por 6 vezes.
Em 2002 publicou o livro "Astolfo Dutra – um líder mineiro na República Velha", rica contribuição à cultura e especialmente à história brasileira.
Nessa época, fiz com ele uma entrevista, que transcrevo a seguir em forma de depoimento, e em que teve a oportunidade de discorrer sobre os estudos, a literatura, a política, a vida familiar, a história e outros temas.

O NASCIMENTO E A FAMÍLIA
Nasci a sete de agosto de 1921, em Cataguases, na avenida a que tomaria de empréstimo o nome. Era o único neto varão do casal Antônia-Astolfo Dutra. Não me faltavam tios, ao todo sete, a maioria dos quais residindo no casarão plantado entre as casas de José Peixoto e um terreno baldio, limítrofe com a casa de Agenor Ladeira.
Minha família era de origem rural, bacharelizada pelo empobrecimento. O clã Resende-Dutra Nicácio esvaía-se. Na realidade, no ramo de que provenho, nunca foi acentuada a vocação rural.
Muitos dos Dutra e dos Resende, como compensação à perda de patrimônio, dedicaram-se ao exercício de profissões liberais: Advocacia, Medicina, Engenharia, com extensões ocasionais pela Política. Por outro lado, é forçoso reconhecer a inabilidade familiar em amealhar riqueza.
No meu caso particular, desde cedo, ouvi dizer que, enquanto alguns tinham talento para criar fortuna, outros tinham para gastá-la. É claro o caráter jocoso da afirmação. Entretanto, aqui valem algumas observações: sob o ponto de vista material, os dois momentos mais prósperos da vida de Pedro Dutra foram aqueles em que mais distante se manteve da lida política – o período anterior à eleição para Deputado Estadual, entre 1924 e 1930, quando construiu a casa da avenida; e aquele compreendido na ditadura de Getúlio Vargas, quando ampliou grandemente sua residência, adquiriu e aparelhou a Fazenda Itajaí, com mais de trezentos hectares.

PRIMEIROS ANOS
Os tempos desenrolados na residência de minha avó e tios marcaram suavemente minha infância, na cidadezinha ainda de ruas recobertas de terra, carentes de movimento e que me permitiam e aos pequenos amigos brincar em segurança na rua.
A vida corria serena, não havendo sensíveis diferenças de classes sociais; todos os meninos estudavam no Grupo, o curso primário era ministrado de forma excelente. Basta dizer que deixávamos o curso primário com o sistema métrico decimal na ponta da língua.
Cumprido o curso primário, o prosseguimento de meus estudos teve forma utópica: fui cursar o ensino médio no Liceu Rio Branco, na capital de São Paulo, onde moravam meus tios maternos, cerca de dez.
Aqui cabe assinalar um fato que marcou positiva e significativamente minha modesta formação cultural: quase todos os meus tios eram leitores cuidadosos e se empenhavam em que não me mantivesse alheio aos livros. Ali travei conhescimento, a partir de dez anos, com Monteiro Lobato, Paulo Setúbal e Guilherme de Almeida.
Radiquei-me em São Paulo nos primeiros dias de 1933. Era uma cidade ainda com toques provincianos, inúmeras ruas iluminadas a gás, ali, bem atual, o soneto de Jorge de Lima.

ESTUDOS E LITERATURA
Meu ingresso no ginásio não foi isento de certo temor. São Paulo acabara de ser derrotado na Revolução de 1930, sobretudo pelas tropas da Polícia Militar de Minas. Os ânimos permaneciam exaltados, num certo sentimento de humilhação. E mineiro eu era, de certa forma coautor da frustração paulista. Mas tudo se arrumou e fui gentilmente recebido.
Concluído o curso ginasial, segui para o Rio de Janeiro, vindo morar em Copacabana, com minha avó e meus tios paternos. O mesmo carinho, o mesmo empenho em minha formação cultural. A princípio, pode parecer que me tenha desinteressado dos grupos literários de Cataguases. Tal não se deu, ocorrendo apenas um fato curioso: os integrantes dos movimentos literários daqui eram bem mais velhos do que eu, o que me intimidava. Além do mais, não me sentia com vocação literária que me permitisse integrar-me entre os intelectuais de minha terra.

FORMAÇÃO E POLÍTICA
Em minha formação, além das influências familiares já assinaladas (pais, tios), assinalo a presença de três professores: Joaquim Silva - História; Geraldo Rodrigues, ex-aluno do Caraça - Conhecimentos Gerais; San Tiago Dantas - Direito.
Foram pronunciadas as influências familiares, em sentido genérico e específico. Meus parentes em geral e meus pais em particular mantinham constantes diálogos comigo, comentando livros e matéria jornalística, o que provavelmente me estimulou o interesse pela coisa pública em geral. Meu interesse pela Política sempre significou maior apego ao trato da coisa pública e sua análise do que atração pelas picuinhas ou tricas de bastidores.

VIDA NO INTERIOR
Na amenidade do trato familiar, raramente, ou quase nunca, os assuntos deixavam de ter como núcleo temas de natureza geral. Um dos aspectos positivos da vida no interior pode ser considerado o convívio entre os moradores, quase todos vizinhos, na cidade de pequenas dimensões. Ter os pais com que o destino me presenteou e haver recebido os ensinamentos que me proporcionaram, devo confessar ter sido a dádiva maior, esta sim, pode ser afirmada como o exemplo fundamental e a herança mais significativa de minha existência.

A CARREIRA
Nunca meus pais procuraram influir na escolha da carreira que viria a abraçar. Fui advogado por escolha própria e obtive razoáveis êxitos profissionais.
A tendência para a História de Cataguases decorre do amor que meus pais me legaram pelo nosso torrão. O mérito e o significado que a biografia "Astolfo Dutra: um líder mineiro na República Velha" possa ter deitam raízes no hereditário amor à terra.

É com grande pesar que registro o falecimento desse grande cataguasense que foi Astolfo Dutra Nicácio, um homem de convívio agradável, talentoso e principalmente dono de uma escrita elegante e correta, e que agora perdemos.




4/02/2017

MINICURSO EM LEOPOLDINA


Caminhos da Literatura - 1. A Poesia

Realizado no dia 1 de abril de 2017, o minicurso "Caminhos da Literatura - 1 A Poesia", ministrado pelos professores Francis Paulina e Joaquim Branco, sob a chancela da ALLA - Academia Leopoldinense de Letras, no Cefet-Leopoldina, organizado pela professora Glaucia Maria Costa, no horário de 9 às 11 h.